Conheça a rede de Polos de Emprego clicando AQUI

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

REVISTA MAIS - OS INDESEJADOS


Suponha que estava desempregado e ofereciam-lhe uma picareta, uma pá e um par de luvas. Teria direito a contrato por tempo indeterminado e começava com um salário base de 513 euros. "Eu não tenho medo de trabalhar, tenho calos nas mãos e agarro-me à enxada se for preciso!", responderia. Muito bem, vai trabalhar para a Câmara. "Fantástico, eu que sempre sonhei com uma carreira na função pública!", diria. Parabéns acaba de assinar o contrato para ser "assistente cemiterial", mais vulgarmente conhecido por coveiro. Amanhã tem uma exumação às 9 horas e um funeral às 12h30.

"Eu não fazia nem que me dessem 5 mil euros por mês", responde António Monteiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local (STAL), que representa a classe laboral mais rejeitada da actualidade: os coveiros ou, se preferir, os "assistentes cemiteriais", nome pomposo atribuído pelos municípios para tentar vencer a barreira estereotipada do medo e do preconceito e ver se consegue um ou outro candidato ao cargo, nem que seja um por década.

O actual quadro de oito coveiros municipais no Funchal é reduzido e assumidamente insuficiente para dar resposta aos serviços funerários nos quatro cemitérios da capital madeirense. A autarquia lançou um concurso público para admitir 10 novos coveiros, propondo-se a duplicar o actual quadro, mas, volvido um ano, o STAL desconhece qualquer entrada de pessoal para o cargo.

"Esta profissão não é qualquer coisa" "Raramente aparece porque ninguém tem coragem", observa António Monteiro. "Por aquilo que eu sei, ao nível de concursos para coveiros, pouca gente concorre ou nenhuma", acrescenta. Afinal, quem é que quer passar oito horas diárias entre os mortos, ter de fazer exumações de cadáveres, desmembrar ossadas, participar em cerimónias fúnebres, sepultar mortos...? É claro que é um emprego digno. Mas deixamo-lo para os outros.

O dirigente do STAL diz que é preciso ter estômago para aquilo. "Eu por exemplo não tinha. Lembro-me, há uns tempos atrás, que eu fui curioso assistir ao desenterro de um corpo que tinha sido enterrado há 30 dias, veja lá... Eu nesse dia nem almocei, está a ver? Mas há pessoas que fazem aquilo com a maior das facilidades".

E se é preciso estofo, nem por isso o esforço do trabalho é compensado. "São baixos salários e pronto, não se justifica. Quem precisa se calhar vai fazer qualquer coisa, mas esta profissão não é qualquer coisa".

E tanto não é porque o ordenado em início de carreira não vai além dos 515 euros. "Neste momento, com o congelamento dos salários, eles vão ficando ali eternamente. É um trabalho público mas sem expectativas".

O coveiro integra a mesma categoria profissional que os cantoneiros, sendo a tabela remunerativa idêntica. Mas, nesta última, sempre que abre um concurso público para recrutar mão-de-obra, surgem candidatos aos molhes, mesmo que para isso seja preciso vergar as costas e mondar ervas daninhas, uma a uma, ou cravar a enxada na terra dura das bermas da estrada. "Se calhar apareciam uns 300, agora coveiro é mais complicado", observa.

Falta pessoal para recolher o lixo Outra das profissões pouco populares é a de recolha do lixo. Lá em casa, esta função é sempre muito bem negociada e permite ao adjudicatário livrar-se de outras tarefas domésticas 'cruéis' como a limpeza das casas de banho. Ora, na vida activa é igual: ninguém gosta de ter que enfrentar o cheiro dos resíduos orgânicos, de ter de fazer a triagem do lixo separando o vidro, do plástico, do papel, mas a verdade é que alguém tem de o fazer. Agora imagine se tivesse de fazer o mesmo com o lixo dos outros.

António Monteiro observa que a 'máquina' da salubridade do Departamento de Ambiente da Câmara Municipal do Funchal compreendia, há um ano, um quadro de pessoal composto por 400 funcionários mas, entretanto, esse número foi substancialmente reduzido para 380. As saídas por motivos de aposentação não têm sido compensadas com a renovação de contratos dos trabalhadores a prazo, alerta.

São cada vez menos meios humanos para assegurar o mesmo serviço de recolha, varredura, limpeza, triagem e transporte de resíduos para as estações de transferência e para a incineração na Meia Serra.

Mas a falta de gente nas brigadas de limpeza da câmara resulta da fraca procura? "Não. É claro que é um trabalho um bocado doloroso, ter de andar na parte detrás do carro do lixo, mas pronto, as pessoas vão se tiverem necessidade", responde António Monteiro. As tabelas remuneratórias são muito idênticas aos coveiros. 513 euros para um trabalhador em início de carreira que pode chegar aos 600 ou 700 mensais se acrescentar horas extra, serviço por turno (25% se for noite) e subsídio de refeição.

"No ano passado a Câmara tinha aberto concurso público para 40 pessoas mas, como se deu aquela tragédia no dia 20 (de Fevereiro), começaram a pôr pessoas do Centro de Emprego, a receber salários baixos e tudo de maneira camuflada e agora não estão a admitir essas pessoas e os concursos ficaram todos pelo caminho", lamenta.

Recibos verdes, limpeza e trabalho nocturno Qual é a profissão mais cruel e aquela que ninguém quer? Sidónio Fernandes, director regional do Emprego é cautelosa na abordagem. Diz que classificar as ofertas de emprego numa escala de muito ou pouco aliciante é muito subjectivo. "Aquilo que para alguns pode ser atractivo, para outros não o será. Depende muito das expectativas pessoais de cada um e da urgência em conseguir um posto de trabalho", responde.

"Cada oferta de emprego que recebemos inclui um conjunto de requisitos que, nalguns casos, dificultam o ajustamento com a procura, como sejam, os horários e o local de trabalho, a remuneração, exigência de experiência profissional na área, habilitações, idade, entre outros. Alguns destes requisitos podem não ser fáceis de satisfazer por parte dos candidatos que temos", sustentou o director regional.

Ainda que não exista nenhum dado objectivo que nos permita qualificar as ofertas como mais ou menos atractivas, Sidónio Fernandes conclui, pela experiência dos últimos anos, que os desempregados, de um modo geral, têm menos apetência para as ofertas que não garantem muita estabilidade (como é o caso dos denominados "recibos verdes"), as vagas para trabalhos de limpeza e os horários que implicam trabalhar à noite e/ou ao fim-de-semana.

"No sentido inverso, verifica-se que a maior procura, por parte de quem está desempregado e consoante as qualificações de cada um, são as profissões ligadas à área administrativa, ao comércio, ao atendimento ao público em geral e ao acompanhamento de crianças. De um modo geral, há mais procura por profissões que são associadas a um horário diurno e, se possível, de segundo a sexta-feira", observa.

As ofertas de emprego de Dezembro último confirmam esta tese. O grupo de profissões "pessoal do serviço de restauração e dos serviços directos e particulares e de protecção e segurança" representam 29% do total de ofertas de emprego comunicadas. Das 54 propostas, 31 continuavam por satisfazer no final do mês.

À categoria "trabalhadores não qualificados dos serviços e comércio" foram também oferecidos 32 postos de trabalho a desempregados. Destes, 9 não foram correspondidos. Seguem-se "outros técnicos e profissionais de nível intermédio" (9 por satisfazer em 15 ofertas) e "operários, artífices e trabalhadores das indústrias extractivas e da construção civil": das 12 ofertas apenas metade dos desempregados disseram 'sim'.

"Quanto ao tempo de satisfação das ofertas, ele varia consoante a necessidade do empregador. Se ela surge quando o empresário se vê privado de algum colaborador que deixou subitamente a empresa, normalmente é-nos solicitada uma maior brevidade na colocação. Se, pelo contrário, se trata de um recrutamento para novas necessidades de pessoal, há mais tempo para fazer a selecção e, em consequência, ela pode ser realizada de forma mais criteriosa", descreve.

Sidónio Fernandes acrescenta que, em épocas de menos desemprego, "o perfil de exigência por parte dos empregadores pode baixar face à dificuldade em conseguir trabalhadores para esta ou aquela área". Diz que na situação actual, "havendo maior base de recrutamento, é natural que esse grau de exigência possa aumentar".

O nível remuneratório de cada oferta varia consoante as qualificações exigidas e o grau de experiência anterior que é pedido, acrescenta o director do Emprego, sem especificar.

Salário médio é o salário mínimo A representar o grupo de trabalhos menos apetecidos está Maria José Afonseca. A dirigente do Sindicato de Vigilantes, Limpeza e Portaria, diagnostica desde logo os problemas da classe: contratos a prazo, sem vínculo e muitas vezes abaixo do salário mínimo.

No portal do Instituto Regional de Emprego, há quatro pedidos para empregadas domésticas para a zona do Funchal. Um sector onde a procura é significativa mas "o salário médio é o salário mínimo". É que as entidades empregadoras contratam o serviço de limpeza mas depois começam a reduzir as 40 horas semanais previstas para 35 ou 30. O trabalho doméstico já é árduo. Então quando o salário encolhe...

"Muitas das nossas trabalhadoras não tem vínculo laboral e depois torna-se difícil, na hora de reclamar, provar a contratação e exigir o cumprimento de direitos e deveres. As empresas empregam cerca de 1.200 funcionários de limpeza, a maioria do sexo feminino, mas poderão chegar a 5 mil o número total de prestadores de serviço doméstico na Madeira. "Nem a Direcção Regional do Trabalho tem a noção de quantos são", nota Maria José Afonseca.

Na portaria e vigilância, a precariedade é também nota dominante. A dirigente sindical concorda com Sidónio Fernandes - trabalhar à noite e por turno custa muito - mas não acredita que alguém sem subsídio de desemprego dispense uma oportunidade de trabalho.

O grande entrave nos postos de vigilância e portaria das empresas de segurança privada (há pelo menos oito na Madeira), prende-se com a instabilidade laboral, a flexibilidade laboral extrema e a mudança repentina de horários e turnos. "Contratam pessoas a prazo a tempo parcial para assegurar a vigilância de um cliente em exclusividade e, volvidos dois ou três meses, dispensam e contrato outros".

A roleta russa da rotatividade nos postos de serviço e alteração dos horários faz-se a troco de 5,10 euros por dia ou 634 euros por mês. "Tudo isto explica a menor predisposição para aceitar estes trabalhos", aponta Maria José Afonseca.

REVISTA MAIS - DIÁRIO DE NOTÍCIAS

1 comentários:

  1. pois eu sou encarregado do cemitério municipal de Loulé,no Algarve, e o que o srº diz neste excerto não deixa de ser verdade, mas ninguém quer saber desta realidade que é trabalhar num cemitério, só lhes interessa quando morre um amigo ou familiar, aí exigem aos funcionários que façam até de amas secas, enfim, eu como encarregado, e tenho 10 cemitérios para "resolver" os problemas estou com um salário bruto de 890.00€. gostava que quem faz estas leis sem sentido, viesse trabalhar nem que fosse só uma semana no cemitério e fazer o que os COVEIROS fazem,para ver a reacção, gostava de os ver a mexer em restos humanos em decomposição, enfim, assim vai o nosso País.

    ResponderEliminar